Terça-feira, Março 03, 2009

Um abaixo-assinado para Deus

Deus,
Venho aqui fazer um pedido. O senhor sabe como hesito em pedir, como me custa pedir pelos problemas do meu mundinho, quando voce esta ai ocupado com tantas mazelas.
Mas como sua filha, tao privilegiada, eu vou pedir. Aceitarei resignadamente a sua decisao de me ignorar, de rasgar este abaixo-assinado e olhar apenas para aqueles que sofrem dores que eu de repente jamais venha a experimentar. Confio na sua justica acima de qualquer coisa.

Nao quero parecer puxa-saco e enumerar todas as suas gracas, mas sinto de coracao que me cabe agradecer antes de mais nada. E como voce quebrou galhos meus, hein? Lembro como se fosse hoje subir as escadas de casa desesperada em direcao ao quarto dos meus pais, me agarrar ao terco da minha primeira comunhao e te implorar que devolvesse a minha gatinha Duda sa e salva. Quantas noites escuras tomada de medo irracional, eu repeti teu nome e consegui adormecer em paz. Quantas vezes voce permitiu eu fazer simplesmente o que eu bem entendi. Que amigos maravilhosos voce me deu, e outros tantos seres de luz com quem esbarrei. E como se voce sussurrasse no meu ouvido dizendo que aquele encontro era pontual e com paz eu deveria aceitar a finitude das coisas.

Eu agora tenho medo. Confio no espirito, mas temo pelo corpo. Esse corpo ao qual eu sou tao desatenta. Meu corpo diz que nao esta bem, minhas celulas se transformam de uma maneira estranha, minha coluna doi, meu sangue se desvia, meu abdomen esta desconfortavel. Ah, meu deus, eu ainda tenho tanto para caminhar, Tantos afetos ainda nao foram vividos. Queria ter evoluido mais e poder pedir apenas que me de paz para aceitar o que for. Mas voce me conhece e sabe que nao eh bem isso. Essa tua filha quer essa vida aqui, quer ver o sol nascer por ainda muitos dias, quer andar muito mais, quer enfrentar mais tantos outros medos, quer ver crescer pessoas, quer ver seu rosto com as marcas do tempo e de uma historia que encha seu coracao de alegria, quer mais abracos, mais pulos, ouvir mais musicas. Eu nao quero perder essa valsa nao.

Te peco que cuide do meu corpo com o mesmo carinho que vem cuidando de mim. Nao deixa meu corpo falhar nao, meu pai. Eu preciso dele nao tanto quanto preciso da minha fe, mas ele eh um espaco sagrado, que me permite contemplar a ti e a tua obra.

Vou mandar essa carta e prometo, ainda que saiba que voce nao exige contra-partidas, clamar por te ouvir todos os dias.

Me da uma missao, me da um corpo sao, faz de mim um objeto da paz.

Assinam aqui:
Eu, Andrea Vazquez Estevez
Mamae
Duda
Amigos e passantes que em algum momento se alegraram com a minha existencia, e outros que ainda estarao por vir

Sábado, Agosto 16, 2008

Ana, a cheia de graça

Aninha,

essa é a primeira cartinha que a titia escreve para você.

Estou aqui ansiosa esperando você chegar, ter certeza de que você fez boa viagem entre as estrelas. Eu sei que papai do céu está cuidando muito bem de você e que te entregará para nós lindinha e alegre.

Você ainda é muito frágil e pequena e precisa de nossos cuidados. No que depender da gente você será a menina mais feliz do mundo. Mas sabe, Aninha, o mundo não funciona apenas pela nossa vontade, do jeito que a gente quer. O mundo tem um montão de gente. Tem gente que gosta de vermelho, tem gente que gosta de amarelo. Quando chegar a primavera você vai ver uma flor nascer e ela pode ser de uma cor ou de outra, a sua favorita ou não. Você vai ver que mesmo a que não é a sua preferida também pode ser bem bonita se você souber apreciá-la.

Talvez seja bem cedo pra eu te contar isso, mas como eu sei que esperta você será e que nós seremos grandes amigas, eu preciso logo te contar a verdade. E vou aproveitar também pra te contar um segredo. Nosso primeiro segredo, tá? O segredo é que existe alguém que é feito só de amor. E esse amor tão grande faz com que esse ser seja maior que tudo e que todos, porque o amor é a coisa mais linda do mundo. Se alguém algum dia te falar o contrário, não acredite.

Esse amor é seu pai celestial - lembra que foi ele que fez a viagem contigo pelas estrelas? Então, esse pai estará sempre contigo, em cada segundo da sua vida, te cercando com todo este amor. E eu quero te dizer que eu espero que você confie nele com todo o seu coracãozinho. Sabe Aninha, você vai ter muitas dúvidas ao longo dessa caminhada, mas quando isso acontecer, feche seus olhos e escute o que esse pai de amor tem pra te dizer. Ele sempre vai te contar qual é o caminho certo a seguir. E se por acaso você entender errado, não se preocupa não: ele vai te buscar de volta. E é claro, nós também sempre estaremos aqui para te abraçar e amar incondicionalmente.

Confie sempre no amor. Se ame. E ame os demais do mesmo jeito que ama a si mesma. Acho que esse é o melhor que eu poderei tentar te ensinar.

Da tia que te ama,

Deia

Quinta-feira, Abril 17, 2008

Essencia

Posso vir a esquecer muito daqui, mas uma coisa vai ficar:esse cheiro de carpete, com laque, com cerveja, com mofo, com perfume de travesti da Mem de Sa. Cheiro de Shoreditch.

Sexta-feira, Abril 11, 2008

Radiohead Widgets

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Trilha sonora: Detects of my Affection

Sai por aquele portao de ferro laranja tomada ainda por pensamentos vazios. "You give such a hard time". So nao sei se o YOU seria SHE ou I. Ergo a cabeca e vejo aquela lua imensa, a mesma da menina do filme que assisti hoje.
Ha tempos nao assistia um filme tao bonito, um curta feito em alta definicao. A personagem principal conheceu um cara e por ele foi apresentada a uma nova cidade - um lugar que a vinha fastidiando ja ha algum tempo. Ela estava prestes a se despedir dali. Ela entendeu, vendo o sol nascer de pontos diferentes e desconhecidos (ou esquecidos) por ela tudo que ela estaria em breve perdendo.

Eu resolvi que hoje eu viveria o mesmo, mas tendo a lua cheia como testemunha. O portao laranja transformou-se no meu portal. Me esvaziei dos pensamentos vazios (como eles podem ocupar espaco!).Meus olhos foram lentamente se abrindo, e a lua brilhava, brilhava tanto que quase me cegava. Decidi que iria ao coreto onde tomamos uma vez uma bebida de melancia, fumamos muitos cigarros e vimos o sol se despedir do alto daquela escadaria. Naquele entarder ventava, e nossos olhos insistiam em brilar. Comprei os cigarros, as moedas nao davam para a bebida vermelha. Decidi entao que andaria ate meus ossos nao aguentarem mais o frio. Eu tinha a lua. E ela me bastava juntamente com meu par de pes calejados.

Joaquin Sabina me dizia que queria escrever a cancao mais bonita do mundo. Ai eu mostrei pra ele aquela legiao de bicicletas parada num sinal e acenamos para eles, seus coletes fluorescentes e capacetes. Me vi livre dele assim que adentramos a kingsland road, onde passei na porta daquele bar onde eu achei que poderia voltar a amar quem eu nunca amei. But I wanna sing along with common people, babe, I said. Debaixo da ponte passo bem perto de uma menina tao linda que quase pergunto se ela era filha da lua. Mas fiquei com medo de estragar assim aquela beleza e fiquei com meus pensamentos que poder admirar a beleza de uma mulher eh realmente algo muito digno. E la esta On the Rocks. Por que tantas despedidas? Quando a parceria da danca funciona o passo acompanha ate batidas as quais nao estamos tao acostumados.
Passo sob a segunda ponte. Quantas pontes tem aqui? Acho que vi um gatinho. Nao, nao. Era uma linda raposa. Ha tempos nao via uma. Entendi como um sinal de sorte vindo no mesmo dia que passei debaixo de uma escada, contrariando as supersticoes tolas.
E assim foi uma hora de caminhada magica. Algo fantastico aconteceu? Sim. Eu vi a lua cheia por cima de uma cidade de loucos.

(Corta pra cena do filme)

Ela entendeu tudo isso vendo o sol nascer (o desfecho do filme), quando toca uma musica tao linda quanto o filme. O filme fecha com as maos dela tocando a grama de um verde impecavel . Eu toco as maos dela.


And the question is
Was I more alive then than I am now
I happily have to disagree
I laugh more often now
I cry more often now
I am more me

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Tunel do tempo

Por convite (forcado da minha parte!) da Dri, aqui vai meu "arquivo confidencial"

1978
Eu ainda navegava entre as estrelas, curtindo a existencia do nao-existir, entre anjos e cometas. Um casal de galegos se questionava se era a hora de voltar para terra natal exatamente nesse ano. Resolveram ficar na terra abencoada por Deus e bonita por natureza, para ali mesmo convocar a minha presenca. Acho mesmo que eu nao seria eu mesma se fosse eu pontevedrense.


1983
"Onde voce mora?"
"Rua Balcanica Manhera"
A rua era apenas "Balcanica", mas por algum motivo desconhecido eu adicionava o segundo nome.
Eu era a crianca mais fofa e simpatica do quarteirao, sempre brincando sozinha, autistinha, sem perturbar a paz de ninguem. Meu cabelo ainda era claro e os olhos azuis. Ah! Eu eu tinha um lindo vestido de coelho.


1988
Esse foi o ano da grande greve das escolas publicas do Rio de Janeiro. Nao tive aula nos ultimos tres meses do ano. Em janeiro de 89, minha mae quase se despediu da gente. Apesar de nao entender muito o que estava acontecendo, lembro de ter tomado consciencia numa noite de muito calor que o choro abafado do meu pai e da minha irma na hora de dormir era um sinal de algo nao muito bom.


1993
Nesse ano eu cresci como se tivesse tomado fermento. E comia como uma louca. E achava o maximo o fato de so emagrecer. 
Estava na setima serie e tive meu reinado nerd ameacado! Ameacado, nao. Tirado mesmo. Uma menina, nao so mais nerd como linda, roubou a minha posicao de melhor aluna - e com ela a bolsa de 50% do colegio, ficando para mim os 40%  de desconto na mensalidade. LOL.

1998
18 anos, finalmente. Em 1993, eu tinha toda a certeza que aos 18 seria uma "mulher-livre-independente". "Meus pais me enchem o saco. Esperem so ate eu ter 18 anos e sair de casa! Umpf!"
Obvio que nao sai de casa. Nem me tornei independente. Mas aprendi a dirigir - chevetao 88, tinindo, com desafogador e rodas de magnesio. Vruuuuum! 
Tive meu primeiro namorado e  fazia cursinho pre-vestibular a noite e ia pra escola tecnica de manha. Foi o ano da duvida existencia maior de adolescente: O que eu quero ser quando crescer?
Desde bem nova sabia que queria estudar algo relacionado a comunicacao, mas por pressao familiar, acabei decidindo por administracao e direito. Na ultima inscricao nao resisti e marquei jornalismo. Passei. No fundo, a gente sempre sabe o caminho certo.
Nesse ano dancei muito e me diverti mais ainda. Eh o fervooooo! 



2003
Comecei o ano viajando de trem pela Europa. Conheci um amor e voltei pro Rio, de onde fiquei longe por oito meses. Custei a me readaptar e ache que passei o ano todo no espaco.
Mantive o tal namoro a distancia e juntos resolvemos que Londres seria nosso destino. Nao foi o nosso, mas foi o meu.
Gracas ao meu primeiro emprego de gente grande, eu pude fazer do plano algo concreto. Fui duas vezes para Toronto. Nao consegui me formar,como era o planejado.


2008
Ano em que completarei 28 anos, um numero perfeito.
Sem expectativas
Com paz no coracao
Que venha o que tiver que vir

E daqui a cinco anos eu conto como foi.

:D

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Maria Eduarda

Fui acordada as 5.30 da manha por uma mensagem de texto. Acho que foi uma mensagem quase sincronizada com as luzes do albergue, um dos mais modernos mas tambem um dos mais burocraticos (alias, o unico eu acho) do Caminho.
O pedido para que eu ligasse assim que possivel acompanhado de um tom doce que mais tendia a compaixao logo apertou meu coracao. Para nao acordar os demais, me tranquei no banheiro e diz a ligacao.
Ela nao estava mais entre a gente, foi a primeira frase que ouvi naquela manha fria de Lugo. Se foi antes de completer 18 anos. Foi com certeza o melhor presente da minha infancia, apesar de eu nunca ter concordado com esse papo de animais serem presenteados, na qualidade de qualquer objeto.Mas ela se juntou a nos por pedido meu. A Flavia foi mais persuasiva e levou o irmaozinho dela. Ela era mesmo pra ser minha. Desde pequena anti-social, so respeitava quem queria e quando queria.
Quando a minha fe esta em baixa eh uma cena apenas que me vem a cabeca: eu correndo escadas acima, subindo os degraus de dois em dois, em rumo ao quarto dos meus pais. Era na cabeceira da cama deles que eu me refugiava para pedir a Deus que trouxesse minha gatinha de volta cada vez que ela sumia. Eu pedia com tanta vontade, agarrada a um terco que ficava pendurado numa das pontas da cabeceira, que foram certamente os momentos que estabeli contato mais forte com ele. Mal sabia eu das suas escapolidas cheias de intencao. Hoje ela deve estar la no paraiso dos gatos (tudo bem que ceu de gente nao existe, mas que ninguem venha me dizer que nao tem de bichos!) com aquela panca grande virada pra cima, girando de um lado pro outro.
Minha mae fez questao que ela ficasse debaixo do coqueirinho, lugar favorito da sua “siesta”. E assim eu acredito que assim como a menina do terco sempre olhou por ela, que ela continua a olhar por mim sob a sombra daquele coqueiro.

Quinta-feira, Agosto 16, 2007

Ou casamento de viúva

Pela janela eu vejo o sol e a chuva.
Nunca parei para pensar o motivo, mas sempre tive um encantamento por este fenômeno.
Até hoje me vem logo à cabeça o "chuva e sol, casamento de espanhol". Quando eu era criança achava que qualquer dia daqueles meus pais se casariam de novo, quase que por uma obrigação da natureza.
Será que eu sou a única a achar que o sol brilha diferente quando na presença da chuva? É como se eu de repente me sentisse num mundo mágico, onde tudo é possível.
Os opostos assim tão belos e harmônicos...
É, deve ser isso.

Sábado, Agosto 11, 2007

Refem das palavras

Existe um equivoco em achar que a exposicao da nossa vida (leia-se traumas, medos e outras coisas que guardamos la bem dentro de nos) eh proporcional a ligacao emocional que temos com alguem.

Conhecemos uma pessoa, por ela vamos nos apegando e logo vamos entregando sentimentos, que por sentimentos serem, sao uma versao da estoria que criamos a partir do nosso ponto de vista em determinada situacao. Nao raro me arrependi das minhas versoes. Ai vai la,voce contou um monte de "auto-psicoanalise" praquela pessoa que julgava estar ganhando a sua confianca - talvez no intuito de achar que aquilo faria com que ela te conhecesse melhor ou fruto do desejo de querer sermos sempre compreendidos. E de repente ela comeca a usar isso contra voce, na verdade para cobrir uma fragilidade ou justificar uma neurose DELA.

Isso eh so pra dizer que conexao nao se mede por estorias contadas, mas por belezas compartilhadas. No Caminho, eu me conectei a pessoas muito diferentes de mim. Pouco sei sobre a maioria delas. Nao sei seus medos nem suas estorias do passado, se foram amadas na infancia, se puderam demonstrar o amor ou o odio que tinham no peito. Mas sei que antes de mais nada, podem abrir o coracao e conecta-lo ao meu. Se um dia, numa dessas ligacoes, der vontade de no meio da madrugada dividir estorias as mais simples ou as mais secretas, o faca. Mas lembre-se que o coracao vem antes da palavra. Que essa sim pode equivocar-se.

Sábado, Julho 14, 2007

Design